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CRÍTICA | Ad Astra – Brad Pitt interpreta um astronauta melancólico

CRÍTICA | Ad Astra – Brad Pitt interpreta um astronauta melancólico

O espaço é a fronteira final e também uma eterna solidão em Ad Astra

“Sic itur ad astra”, escreveu Virgílio no nono livro da Eneida. A frase em latim significa “então vamos para as estrelas”, a motivação única por trás da jornada de Roy McBride, o astronauta melancólico interpretado por Brad Pitt no filme. Ad Astra é o típico filme com grandes momentos para explorar ideias íntimas.

Ad Astra

No futuro, descargas energéticas começam a danificar as estruturas elétricas do planeta Terra. Estas ondas destrutivas ameaçam destruir todo o sistema solar e estão possivelmente vinculadas à uma expedição em Netuno capitaneada pelo lendário astronauta H. Clifford McBride (Tommy Lee Jones). O comando espacial convoca seu filho, Roy, para tentar contactar o pai via uma base subterrânea em Marte, uma das poucas com tecnologia de comunicação de espaço profundo e imune às descargas energéticas.

Roy é um astronauta extremamente competente, porém completamente desconectado do mundo. O espaço sideral apresentado no filme é um lugar escuro e cheio de perigos. A Lua vive em constante conflito já que não faz parte de nenhuma nação, a civilização marciana, criada no subterrâneo é repleta de pessoas que nunca visitaram a Terra e só a conhecem por meio de ambientes simulados, e missões espaciais podem terminar em desastre devido aos menores erros. E neste universo de pesadelos, Roy prefere a solidão que este mundo oferece do que tentar fazer parte de um planeta com pessoas.

O início da trama dá a entender que Roy não é uma pessoa completa. Sua desconexão com as pessoas não vem de uma condição psicológica específica, mas sim de sua história pessoal, algo que é revelado nas entrelinhas de sua jornada e da introspecção do personagem, que se manifesta na trama em forma de narração.

Este mundo é fascinante, mas o diretor James Gray não está interessado em criar um novo universo de aventuras, como toda boa ficção científica, o longa cria um futuro para explorar a condição humana. Será que a exploração espacial de fato é estimulada pela busca constante de novas descobertas? Ou será que alguns indivíduos fogem para as estrelas porque a alienação e o convívio com as pessoas se tornou insuportável demais? A conexão com a humanidade se torna um fardo, e a solidão de uma nave vira um grande atrativo.

Fascinante

A premissa é mais existencial que aventureira, mas isto não quer dizer que visivelmente Ad Astra não impressiona. Gray demonstra uma versatilidade por trás das câmeras como poucos diretores da atualidade. Ele consegue conciliar o espetáculo visual de Gravidade de Alfonso Cuarón com o minimalismo solitário de Denis Villeneuve. Visualmente é uma contradição, estes astros gigantescos, cenários alienígenas e bases espaciais fantásticas e extremamente realistas que apenas alimentam a introspecção de um homem com medo de confrontar seu próprio passado.

O roteiro não tem grandes pretensões. Não espere uma reviravolta, alguma revelação bombástica ou um psicodelismo a la 2001: Uma Odisseia no Espaço. Apesar da riqueza de seu ambiente, Ad Astra poderia muito bem ser um filme independente de baixo orçamento sobre um rapaz na estrada em busca de seu pai. Não quer dizer que a premissa não se beneficie da roupagem de ficção científica, na verdade, a jornada emocional até se torna mais forte por causa dela. Porém, não deixa de ser uma história essencialmente humana.

Vale a pena? Brad Pitt está passando por uma espécie de renascimento este ano após alguns anos conturbados pós-divórcio. Se em Era Uma Vez Em… Hollywood ele interpreta uma versão bombástica e super-humana do herói Hollywoodiano dos anos 60 (não seria difícil ver ele substituindo Tom Laughlin em um remake de Billy Jack nos dias de hoje). Em Ad Astra ele faz um contraponto e mostra uma de suas atuações mais humanas, versáteis e vulneráveis dos últimos tempos.

No fim, é um daqueles filmes que estão se tornando cada vez mais raros nos cinemas, e com certeza, merece toda sua atenção.

Ad Astra estreia nos cinemas brasileiros no dia 26 de Setembro.

Até a próxima!