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Conversamos com Alejandro Rosas e Juan Pablo Medina de ‘Segredos de Guerra’

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Conversamos com Alejandro Rosas e Juan Pablo Medina de ‘Segredos de Guerra’
Juan PabloMedina (La Casa de Papel) narra os Segredos de Guerra na nova série do Canal History

A história muitas vezes esquecida sobre a participação de América Latina na Segunda Guerra Mundial é o recheio da série do History.

Band of Brothers (2001), Das Boot (1981), O Resgate do Soldado Ryan (1998), O Mais Longo dos Dias (1962), Pearl Harbor (2001), A Lista de Schindler (1993), A Cruz de Ferro (1977). O cinema e a TV vêm usando a Segunda Guerra Mundial como fonte constante de histórias. Mas, pelo que chega à tela, o conflito se resume à Europa, chegando à frente russa em produções como Círculo de Fogo (2001) e à Ásia em longas como Império do Sol (1987), o duplo ponto de vista de Clint Eastwood em Cartas de Iwo Jima e A Conquista da Honra (2006) e Legião de Heróis (2006), que retrata um grupo de soldados australianos. Em outras palavras, a julgar pela ficção, a América Latina teve um papel secundário no conflito, ou menos do que isso. É aí que entra Segredos de Guerra, série do History que mostra a participação e envolvimento do Brasil, México, Colômbia, Argentina e outros vizinhos no conflito que deu forma ao mundo em que vivemos hoje.

Histórias que surpreenderam até mesmo o historiador Alejandro Rosas, com quem conversamos com exclusividade sobre a série. “A Força Expedicionária Brasileira me surpreendeu muito. Eu sabia sobre a participação do Brasil, mas fiquei muito surpreso”, diz Rosas, com quem conversamos online lembrando o envio de mais de 25 mil brasileiros para lutarem na Segunda Guerra Mundial e dando outros exemplo dos casos relatados pela série.“Todo o caso do sequestro de Adoph Eichman em Buenos Aires pelo Mossad para leva-lo a Israel”, lembra o historiador sobre a ação que levou o criminoso nazista para ser julgado em Israel.

O ator Juan Pablo Medina (A Casa das Flores), narrador da série, também se surpreendeu com o material, revelando uma situação comum, em que cada país sabe somente sobre a sua própria participação no conflito, mas pouco ou nada sobre os países vizinhos.

“Eu sabia algumas coisas sobre o México, mas eu não sabia todas as coisas que aconteceram, como os países na América Latina estavam envolvidos nessa parte da história, foi incrível conhecer  o assunto e emprestar a minha voz para que as pessoas possam conhecer “, comentou Medina em outra entrevista exclusiva, apontando a importância da série . “Nós temos de saber de onde viemos e em que parte da história estivemos envolvidos e em qual não estivemos”.

Originalmente, Medina e Rosas trabalhariam juntos em Segredos de Guerra. Mas, como tantos outros projetos pelo mundo, a Pandemia também afetou a série. “No começo era pra eu ir a Buenos Aires”, conta Juan Pablo. “Nós iríamos fazer um tipo de quadro em que ele iria me contar a história e, daí, eu iria fazer a narração”, ele explica. “Então, tudo isso aconteceu pelo mundo, eu não pude ir a Buenos Aires e pensei que o History iria me cortar, mas eles perguntaram se eu poderia fazer a narração no México e eu respondi que ficaria feliz em fazer”. O que acabou sendo um trabalho inédito na carreira do ator.  “Eu não estava acostumado a fazer esse tipo de trabalho, foi algo novo para mim”, ele conta. “Ficamos 8 horas no estúdio. Para mim foi uma grande experiência. Na sexta hora minha voz começou a ficar um pouco rouca, sei lá, talvez no  quarto  capítulo minha voz vai estar assim” ele ri.

Para Alejandro, Juan Pablo foi a escolha perfeita. “Eu já o conhecia pelo trabalho como ator, gosto muito da voz dele, ele narra muito bem, com muita pausa, boa medida. A história me emociona,” diz o historiador, “então, vê-lo narrar, me agrada muito”, ele completa.

Ambos concordam que a falta de produções de ficção ajuda a manter a participação latino-americana na Segunda Guerra Mundial desconhecida pelo mundo e, até mesmo dos próprios latinos.

“Porque se fala muito sobre a Segunda Guerra  Mundial, mas se fala sobre o Desembarque na Normandia, a batalha na Rússia, o ataque japonês a Pear Harbor, mas essa parte sobre a América Latina não tem sido muito contada, não há muita investigação, creio que esta é a primeira vez que vamos contar essa história em nível regional”, aponta Rosas.

“Eu não me recordo de filmes feitos em nossos países sobre a participação na Segunda Guerra Mundial. Há uma produção sobre Joseph Mengele”, continua o historiador. “O filme se chama Os Meninos do Brasil (1978), onde, supostamente, Mengele clona Hitler, mas é um filme de ficção. Então, acredito que as produções se concentraram na Europa e no Pacífico e nos deixaram de lado. Por isso, creio os 75 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, e essa série podem nos permitir mais adiante produzir algo. Eu não creio que exista no Brasil um filme sobre a Força Expedicionária Brasileira, sei que há documentários e bastante bibliografia, mas um filme que possa contar essa história, como O Resgate do Soldado Ryan ou outras dessas histórias, creio que valeria a pena e com um esforço como esse que o History faz para divulgar a história da guerra na América Latina poderia suceder algo assim”, completa Rosas.

“Eu não sabia que o Brasil foi o país que mais enviou homens para a guerra”, revela Juan Pablo Medina. “Nem sabia sobre essa espiã que veio para o México e teve um caso com Cantinflas”, relata. Ator e comediante mexicano, Cantinflas chegou a Hollywood, onde fez dupla com David Niven em A Volta ao Mundo em 80 Dias (1956) e ganhou uma estrela na Calçada da Fama.

“Ele não era propriamente um espião,” esclarece Alejandro Rosas. “Mas ele se envolveu com essa espiã alemã que havia sido amante de Joseph Goebbels, o famoso ministro da propaganda nazista. Ela sai da Alemanha, vai aos Estados Unidos e se torna amante de Paul Getty, o empresário milionário que dá nome a uma fundação em Los Angeles. E daí vai ao México e se torna amante do ministro do interior, Miguel Alemán, que depois seria presidente do México. Alemán se dava muito bem com os artistas mexicanos, entre eles, Cantinflas. E assim, Hilda Kruger conhece Cantinflas e eles trabalham juntos em vários filmes. É uma história muito interessante, mas Cantinflas não foi espião, apenas teve um relacionamento com uma espiã”. Uma história suculenta de bastidores que envolve passagens por cabarés, camas, exportação de petróleo mexicano para o Terceiro Heich, a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial e uma atriz que se tornou espiã.

Outro ponto desconhecido da guerra é a criação de campos de concentração para japoneses, italianos, alemães  e seus descendentes nos países da América Latina.

“Aqui no México, muito pouca gente sabe que existiram campos de concentração. Não eram campos de extermínio e tortura, mas, aqui, por exemplo, as pessoas foram levadas ao que é conhecido como a Fortaleza de Perote, no estado de Vera Cruz, que é uma cadeia dos tempos coloniais. Então, imagine, essas pessoas estão numa cadeia”, conta Rosas. “Eu creio que esse é um dos momentos mais dramáticos. Todas as histórias têm seu drama, mas esse é um drama humano distinto, porque não tem a ver com a batalha, com a arma, com a bomba, tem a ver com gente que nada devia,” continua Rosas. “E não estamos falando da esposa do general que está combatendo. Nessas migrações que existem pelo mundo, havia pessoas que haviam chegado à América há anos. Já estavam estabelecidas, tinham seus negócios, muitos já haviam se casado com gente do país”. Nos Estados Unidos, o aprisionamento de cidadãos dos países inimigos e seus descendentes incluiu o ator George Takei, o Sr. Sulu de Jornada nas Estrelas, que participou do processo para que o governo pagasse uma indenização a cada pessoa levada aos campos de prisioneiros. O processo, no entanto, teve um reflexo desconhecido no Peru. “Quando foram pagas as indenizações, elas não atingiram os japoneses que estavam nos Estados Unidos vindos do Peru”, explica Alejandro Rosas, relatando que tampouco essas pessoas puderam voltar ao Peru, o que obrigou muitos japoneses que haviam imigrado para a América Latina décadas antes do conflito a voltarem ao Japão devastado pela Guerra e duas explosões atômicas.

Em outro caso emblemático, Alejandro Rosas conta como trabalhadores mexicanos foram enviados aos Estados Unidos para trabalhar nos campos. Por essa mão de obra, o governo dos Estados Unidos pagou ao governo mexicano que, por sua vez, usou o dinheiro em campanhas políticas ao invés de pagar os trabalhadores. Os processos exigindo o pagamento pelo trabalho seguem até hoje, muitas vezes mantidos pelos netos dos mexicanos que nada receberam por fazer parte do esforço de guerra.

Produzida a partir de material de arquivo, depoimentos de especialistas e ex-combatentes, além das recriações que são a marca dos documentários do canal, a série busca contar essas e outras histórias de forma atraente e, quem sabe assim, tirar a participação latino-americana das notas de rodapé do conhecimento histórico. Desconhecimento que teve efeito também sobre Juan Pablo Medina. “Foi tão chocante perceber o que eu não sabia que eu precisava saber mais”, conta o narrador, que disse ter saído da produção em busca de livros sobre o tema.

“Creio que cada país sabia de suas próprias histórias. Os brasileiros sabiam de sua Força Expedicionária, os argentinos sobre espionagem, o Chile sabia sobre as organizações de refugiados nazistas, mas o que nos faltava era saber o que o outro havia feito. Acho que um dos méritos de Segredos de Guerra, sendo brasileiro, ou argentino, chileno, mexicano, basta saber o que estava fazendo esse outro país, o que estava acontecendo nesse outro país”, completa Alejandro Rosas, que garante que não falta material para uma segunda temporada.

Novo episódio, no Canal History, toda sexta às 21h30.