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Anne Frank escreveu em seu diário pela primeira vez no dia 8 de julho de 1942

Divulgação
Anne Frank escreveu em seu diário pela primeira vez no dia 8 de julho de 1942
Uma história que poderia render uma excelente produção.....

Como um diário transformou uma adolescente num ícone mundial. E como outros relatos, igualmente importantes, não conseguem atrair a mesma atenção da TV e do cinema.

A fuga não foi uma surpresa. Anne Frank sabia que ela e sua família, assim como todos os judeus na Europa ocupada pelos nazistas, corriam perigo. Mas em 8 de julho de 1942, quando relatou em seu diário como ela, a irmã Margot e os pais, Otto e Edith haviam se mudado para “o anexo”, uma parte oculta no prédio onde ficava o escritório do pai da menina, Anne, não sabia que estava compondo um dos relatos de guerra mais famosos da história. No esconderijo, para onde também se mudaram o casal Hermann e Auguste Van Pels e o filho, Peter e, algum tempo depois, o dentista Fritz Pfeffer, e graças à ajuda de Victor Kugler, Johannes Kleiman, Bep Voskuijl e Miep Gies, amigos e funcionários de Otto Frank. os moradores viveram ocultos da perseguição nazista por dois anos.

Durante esse período, Anne escreveu e editou seu diário com seus planos de se tornar jornalista após a guerra, seu relacionamento com o pai, a mãe e a irmã, o namoro com Peter e a tensão gerada pelo confinamento até o dia primeiro de agosto de 1944. Três dias depois, o anexo foi invadido pelos alemães e os moradores presos. Anne, Margot e a mãe morreram no campo de concentração de Bergen-Belsen, provavelmente em fevereiro de 1945, quando uma epidemia de tifo matou milhares de prisioneiros. As páginas do diário foram encontradas no anexo por Miep Gies no dia seguinte à prisão dos moradores, e entregues após a guerra a Otto Frank.

O diário de Anne tornou-se livro em 1947, quando foi publicado na Holanda sob o título de O Anexo. Nos anos seguintes, o livro seria editado na Alemanha, França, Reino Unido e Estados Unidos, sendo depois traduzido em dezenas de idiomas. Em 1952, o Diário ganhou uma versão para o rádio, seguida de uma peça ganhadora do Pulitzer em 1955. Quatro anos depois, a história chegava à Hollywood, com o primeiro filme dirigido por George Stevens (Os Brutos Também Amam, 1953). Nas décadas seguintes, o Diário ganharia adaptações para a ópera, a TV, o cinema e uma versão em anime, com novas montagens da peça feitas de tempos em tempos, uma delas estrelada por Natalie Portman. Produzido para marcar os 90 anos que Anne teria completado em 2019, se não tivesse sido assassinada, o documentário Anne Frank – Vidas Paralelas acaba de chegar à Netflix.

Apontada uma das pessoas mais influentes do século XX pela revista Time, Anne se tornaria, ainda, personagem de outros autores, aparecendo como uma passageira no metrô de Londres no livro 253, de Geoff Ryman, ou uma mulher vivendo nos Estados Unidos em O Escritor Fantasma (também publicado no Brasil como Diário de Uma Ilusão), de Philip Roth, os dois imaginando uma realidade alternativa em que Anne Frank sobrevive à Segunda Guerra Mundial, possibilidade que inspirou ainda um episódio de American Horror Story: Asylum.

Transformada em ícone, Anne também se traduziu em um nome de apelo poderoso junto ao público. Em 1993, quando uma editora francesa publicou o Diário de Zlata, relato de uma menina de onze anos sobre a vida durante a Guerra da Bósnia, a autora não demorou a ser chamada de “Anne Frank de Sarajevo”.  A atenção e o interesse de um editor francês, sem dúvida atraído pela referência, salvou a vida de Zlata e sua família, retirados da Bósnia sob a proteção da ONU. Levada para Paris, Zlata sobreviveu, estudou em Oxford e segue uma carreira como documentarista e ativista pelos direitos humanos. Em 2008, ela se tornou uma das organizadoras de Vozes Roubadas – Diários de Guerra, livro onde são reunidos 14 diários de crianças e jovens que viveram diversos conflitos, como a Guerra do Vietnã e a Primeira Guerra Mundial, chamada um dia de “a guerra para terminar com todas as guerras”.

Mas, apesar da tradução em dezenas de idiomas, o Diário de Zlata jamais foi adaptado para a TV ou o cinema, mesmo sendo complementado pela da fuga da família de uma cidade sitiada a bordo de um avião usado para levar ajuda humanitária, cena com ótimo impacto dramático para um final feliz. Longe dos palcos e das telas até hoje também está o War Diary (Diário de Guerra), relato de Qëndresë Halili sobre a guerra no Kosovo. Escrito quanto a menina tinha nove anos, o diário relata a destruição promovida pela “limpeza étnica” de Slobodan Milosevic que forçou a autora e sua família a fugirem para a Macedônia. Mais velha que suas companheiras memorialistas de guerra, Thura Al-Windawi também publicou seu Diário, contando a vida em Bagdá sob a invasão americana quando ela tinha dezenove anos. Aqui, também, não houve adaptações.

A natureza regional dos conflitos, embora mais recentes no noticiário, talvez esteja entre os motivos desses relatos não terem atraído o olhar de roteiristas e produtores. Guerras regionais também não têm a mesma capacidade de mover o espectador quando comparadas com um conflito mundial, ou seus números. Muito menos um vilão facilmente identificado, e mundialmente execrado, como o nazismo. O final feliz das autoras que sobreviveram pode ser outro elemento, nosso gosto pelo trágico, desde que aconteça com o outro, parte da receita que impede que outros diários atraiam a mesma atenção. A Segunda Guerra Mundial como evento histórico, transformou-se ainda em um gênero, do qual fazem parte desde grandes filmes de batalha repletos de astros como O Mais Longo dos Dias (1962) e Tora! Tora! Tora! (1970) a novos olhares como O Barco – Inferno no Mar e relatos sobre o holocausto como A Lista de Schindler (1993), A Vida é Bela (1997) e Sobibor (2018), estes apenas uma amostra da contínua atração do cinema ao longo das décadas pelo conflito que terminou há 75 anos. Na TV, produções como Holocausto (1978), Band of Brothers (2001) e Hunters (2020) retratam o mesmo cenário. Apoiada por tamanha presença cultural, não é difícil entender a força do relato de Anne.

Mas, a nova “era de ouro” das séries pode, um dia, se interessar pela complexa realidade dos Balcãs, do Kosovo e do Oriente Médio pelos olhos de um diário.