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O dia que o futebol brasileiro deixou de sorrir

Faz 40 anos mas tenho todas as lembranças vivas. Acordei um pouco mais cedo para ir ao Corte Inglês, grande magazine espanhol, comprar uma bola com os gomos dos participantes da Copa do Mundo. Nenhum pressentimento ruim, apenas prevenção. Estava no voo da Seleção e, em caso, de derrota voltaria para casa. Mas isso estava fora de cogitação. As malas, por exemplo, bem bagunçadas depois de 40 dias de viagem, não foram arrumadas.

Aliás, eu já tinha deixado meu trabalho para o Brasil pronto. Tempos de tecnologia limitada. Eu gravava um dia antes o material para o pós-jogo. Era fácil com aquele time. Bastava juntar algumas pessoas cantando e mudar a data. A torcida brasileira sorria e dançava o tempo todo. Antes ou depois dos jogos era igual. Mas eu fiz mais. Pedi ao torcedor símbolo da Itália, um senhor grandão totalmente acessível, que gravasse umas palavras para o Brasil considerando a eliminação italiana. E ele concordou na hora. A Itália fora longe demais… Não dava para ganhar daquele time mágico. Material enviado era só seguir para o Sarriá.

O horário do jogo era 17h15. Combinamos de sair meio dia. Não que fosse longe, mas como nosso esquema era diferente, tínhamos que fazer algumas artimanhas em nome de um som legal na transmissão. A TV Record perdera os direitos de transmissão. Era o primeiro Mundial com monopólio da Globo. Mas a nossa equipe tinha criatividade. Silvio Luiz era o narrador da moda, ganhando a maior parte da audiência da “toda poderosa”. Este, talvez, tenha sido o maior motivo da exigência de exclusividade no Mundial.

Se era exclusivo para a TV, não era para o rádio. Então fomos pela Rádio Record. Rui Viotti, um dos nossos coordenadores, bolou um esquema sensacional. A campanha era “Olhos na TV e Som e Coração ligados na Rádio Record”. Ou seja, o convite era para tirar o som da transmissão da Globo e ouvir a narração do Silvio Luiz pela Record. Foi um sucesso. Uma audiência histórica em rádio.

Mas este sucesso gerava cuidados especiais. Nosso som foi “piorando” a cada jogo. Então passamos a comprar três pontos de transmissão e só escolher qual usar na hora da bola rolando. Então tínhamos que testar os três, deixá-los ajustados como se fossemos usar todos.  Às 16 horas estava tudo em ordem. Deu para ver o pequeno Sarriá enchendo. O público era 80% brasileiro. A bandinha de um navio atracado em Barcelona tocava animada. O local era uma alegria só.

E veio o jogo! E, com ele, um turbilhão. Os gols de Paolo Rossi, que quase não foi para a Copa por suspensão envolvendo Máfia de Loteria, foram saindo do nada. Ele fazia fácil. O Brasil sofria para empatar. Outro dele, mais sofrimento e novo empate. Faltava pouco. Ao mesmo tempo que preocupava, sobrava confiança para todos nós. Aquele timaço daria um jeito de vencer. O empate servia, mas era pouco para nossos costumes recentes. E saiu o terceiro gol. Mas foi do Paolo Rossi novamente.

Aí lembro de pouca coisa. Não sei se os torcedores apoiaram ou se calaram. Sei que o jogo acabou e não lembro do final da jornada. No momento seguinte chorava na arquibancada ao lado de Pedro Luiz, nosso comentarista. Silvio Luiz nem tanto. Afinal seria uma festa “global”.

No dia seguinte, embarcamos quase em silêncio. Ao entramos no aeroporto de Barcelona, todos pararam de trabalhar para aplaudir o time. Emocionante! De arrancar lágrimas! Nunca vi nada igual com um time, que afinal fora derrotado.

Na parada técnica em Las Palmas, Juninho, zagueiro da Ponte e um brincalhão nato, fez o grupo sorrir levando um maço de cigarros gigante para Telê Santana. Todos riram. Até Telê. E depois, nunca mais. Foi a última vez que vi um grupo de Seleção Brasileira ou de jogadores do futebol brasileiro sorrindo. Pode ser que tenham seus momentos particulares mas no mais, as vitórias são seguidas de urros e alívio. Vejam as imagens de Dunga em 1994 urrando ou de Cafu em 2002 respirando aliviado.

Hoje não se sorri mais jogando futebol por aqui. Não se brinca, não se fazem apostas, as torcidas são violentas e as tentativas de coisas diferentes esbarram em severas críticas, como ocorre por exemplo com Fernando Diniz. Nem Telê foi mais o mesmo. Ganhou com o São Paulo, mas aquele brilho nos olhos de 1982 não voltou.

Com o tempo novas gerações acostumaram-se com o novo jeito pós Sarriá. Um futebol brasileiro sem alegria, sem invenções, onde os dribles são quase proibidos. Aquele anoitecer no Sarriá com aquela seleção de camisa amarela ainda simples, apenas com um raminho de café estampado, nunca mais será vista. Hoje ela é um grande negócio, um símbolo de tudo que se possa imaginar, menos de arte. A arte ficou enterrada no Sarriá. E quando ele foi demolido devem ter subido junto com a poeira histórias lindas de algo que era a marca de um povo alegre.

Há 40 anos o futebol brasileiro parou de sorrir. Tenho ainda o ingresso e a camisa com raminho de café. É a única que tenho coragem de usar. As atuais não me representam. São de um outro momento com outro jeito e novas ideias. Nada contra. Mas talvez  eu guarde aí a minha única nostalgia. A seleção que cantava “Voa Canarinho”, que arrancava aplausos dos carrancudos catalães e que era aberta a todos, nunca será esquecida.

Naquele dia 5 de julho de 1982 o Brasil sofreu sua maior derrota. Perdeu o direito de jogar com alegria. Hoje ela compete, não encanta e jamais ri. Parece que o choro da Copa da Espanha nunca mais saiu de nós.