Ao contrário do que se esperava, a segunda noite de desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro teve nível técnico melhor do que a primeira. Três das quatro primeiras escolas a desfilar se credenciaram para o título: Vila Isabel, Salgueiro e Unidos da Tijuca. Na disputa pelo campeonato, elas se somam a Viradouro e Portela, que se destacaram na primeira noite. A apuração acontece na tarde desta quarta-feira (26).

Confira aqui como foram os desfiles:

Primeira noite

Mangueira

Trinta e um anos depois de o Jesus censurado da Beija-Flor ter ido à Sapucaí coberto por um saco preto, a Mangueira teve a oportunidade de exibir, sem censura, o seu Jesus. E o fez de diversas formas: na Verde e Rosa, Jesus foi negro, mulher e, antes de tudo, humano. Imagens de Jesus crucificado também se destacaram na narrativa.

No entanto, o samba responsável por contar o enredo “A verdade vos fará livre”, apesar de ter uma letra forte e repleta de frases impactantes, não empolgou o público. Enquanto o hit do ano passado, que levou a escola ao título, tinha um refrão mais cantável e esperançoso, o deste ano era entoado com menos leveza e mais tensão pelos desfilantes. Não apagou a beleza do desfile, mas fez com que ele parecesse morno.

Um Jesus da Mangueira foi representado pelo ator Humberto Carrão, destaque da novela “Amor de Mãe”, da TV Globo, que carregava um chicote. No entanto, a iluminação do carro alegórico apagou bem em frente a uma das cabines de jurados, o que pode fazer com que a escola perca pontos.

A comissão de frente mostrava como, na visão do carnavalesco Leandro Vieira, Jesus seria tratado no Brasil de hoje caso mantivesse seus ideais. Policiais revistavam de modo violento os moradores da favela, que em dado momento erguiam um muro no qual o nome de Jesus aparecia.

Viradouro

A Mangueira teve o azar de desfilar logo após a Viradouro, cujo samba causou frisson nas arquibancadas. A agremiação de Niterói levou à Sapucaí um enredo sobre as Ganhadeiras de Itapuã, mulheres escravizadas que no século XIX vendiam comida e lavavam roupas na lagoa do Abaeté, em Salvador. Com o dinheiro arrecadado, elas compravam a liberdade de outras mulheres submetidas ao cativeiro.

De refrão chiclete, o samba era entoado à capela em dois trechos e conquistou a plateia. As alegorias e fantasias eram muito luxuosas e caprichadas.

Portela

A Portela, que contou como era o Rio de Janeiro antes da chegada dos descobridores portugueses e fez crítica à destruição da natureza, desfilou quando já amanhecia, mas empolgou o público que ainda lotava as arquibancadas e apresentou fantasias e alegorias luxuosas.

Grande Rio

Outra escola com um dos sambas mais aclamados deste ano, a Grande Rio homenageou Joãozinho da Goméia, pai-de-santo baiano que em 1948, aos 34 anos, mudou-se para Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde fica a escola. Era negro e homossexual.

O verso “Eu respeito o seu amém / Você respeita o meu axé” foi o mantra da escola, mas não evitou um erro básico: o carro abre-alas era acoplado (dois carros interligados) e não conseguiu fazer a curva necessária para sair da avenida Presidente Vargas, onde fica a concentração, e entrar na pista do sambódromo, na rua Marquês de Sapucaí. Isso só foi constatado quando a escola já iniciava o desfile, e foi preciso desacoplar os carros para que ingressassem na pista. Isso causou vários minutos de demora e a escola passou a correr, o que deve fazê-la perder pontos em evolução.

União da Ilha

Logo depois desfilou a União da Ilha, que, na estreia de Laíla como diretor de carnaval, apresentou enredo sobre a dura vida nas favelas. Mostrou helicóptero sobrevoando comunidade, refez cenas do sequestro de um ônibus por um criminoso (o caso mais famoso foi do ônibus 174, em 2000), e os ritmistas estavam vestidos com uniforme escolar remendado com um coração, referência a um tiro.

Mas o terceiro carro alegórico quebrou e precisou ser empurrado, o que exigiu esforço e comprometeu a evolução. A escola desfilou em 71 minutos e será punida com a perda de 1 décimo, na apuração.

Paraíso do Tuiuti

A Paraíso do Tuiuti imaginou o encontro entre o rei português dom Sebastião e são Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro, e fez um desfile correto, mas não empolgante.

Estácio de Sá

A Estácio de Sá, cuja carnavalesca Rosa Magalhães comemorava 50 anos atuando nas escolas de samba, fez uma exibição pobre que não conseguiu encantar os expectadores e é uma das favoritas ao rebaixamento.

Segunda noite

Vila Isabel

A escola mais bem colocada de 2019 a desfilar na segunda noite foi a Vila Isabel, terceira melhor naquele concurso. Em um ano repleto de enredos não patrocinados e cheios de críticas sociais, a Vila Isabel despontou como candidata ao título em 2020 justamente com um tema que se pretendia patrocinado e com o qual até a semana passada a direção da escola reclamava que tivera prejuízo.

Em maio de 2019, a escola da zona norte do Rio firmou um termo de cooperação com o governo de Brasília: faria em 2020 um enredo em homenagem aos 60 anos de fundação da cidade e ofereceria cursos de capacitação para as escolas de samba da capital federal, que não tem desfiles oficiais há seis anos. Em troca, o governo de Brasília ajudaria a escola a captar verbas para o desfile por meio da Lei de Incentivo à Cultura.

Essa lei permite que empresas e pessoas físicas destinem para projetos culturais o dinheiro que usariam para pagar impostos. O projeto apresentado pela Vila Isabel previa captação de R$ 4,99 milhões. Ao menos até o dia 17 de fevereiro, porém, nenhum tostão havia sido arrecadado por meio dessa lei. O enredo acabou deixando Brasília em segundo plano: a partir de um conto indígena, a escola apresentou a formação dos povos das regiões brasileiras e, ao final, a fundação de Brasília. A capital federal já havia sido enredo em 2010, quando completou 50 anos, e naquela ocasião rendeu o terceiro lugar à Beija-Flor.

Antes de tudo, a Vila Isabel inovou ao criar o posto de rainha da escola — normalmente, as mulheres famosas que desfilam à frente dos ritmistas recebem o título de rainha da bateria, e não da escola inteira. A apresentadora Sabrina Sato, que foi rainha da bateria da Vila Isabel durante nove anos, de 2011 a 2019, neste ano foi substituída pela dançarina e modelo Aline Riscado, mas desfilou à frente da escola, acompanhada por Martinho da Vila, presidente de honra da Vila Isabel. A dupla causou frisson na plateia e ofuscou a comissão de frente, que vinha logo em seguida.

Com carros alegóricos e fantasias luxuosas e com excelente acabamento, a escola também contou com um samba animado, cujo refrão fazia uma ode a si mesma: “Sou da Vila, não tem jeito / Fazer samba é meu papel / Fiz do chão do Boulevard meu céu”, diz a letra. A escola terminou o desfile aos gritos de “é campeã”.

São Clemente

Antes dela, desfilou a São Clemente, que levou para a avenida o enredo “O Conto do Vigário”, sobre as enganações a que o povo brasileiro foi submetido ao longo da história e às tentativas de se dar bem enganando os outros. O enredo foi exatamente igual ao apresentado pela Acadêmicos de Vigário Geral, que integra a segunda divisão e desfilou na última sexta-feira, 21.

Naquele desfile, o destaque foi um carro alegórico que representava o presidente da República, Jair Bolsonaro, como o palhaço Bozo fazendo com a mão o símbolo de uma arma. Desta vez, Bolsonaro não foi representado em escultura, mas pelo humorista Marcelo Adnet, que é um dos autores do samba-enredo da São Clemente, cheio de menções a fake news e a laranjas.

O humorista desfilou no quarto carro alegórico e atravessou a Sapucaí fazendo imitações de Bolsonaro. Além de jogar laranjas para a plateia, fez uma série de gestos tradicionais do presidente, como a “arma” com as mãos, a continência militar e até desajeitadas flexões de braço.

Salgueiro

Logo após a Vila, desfilou o Salgueiro, escola frequente candidata ao título, desta vez apresentando a história de Benjamim de Oliveira (1870-1954), o primeiro palhaço negro do Brasil.

Assim como a Vila, o Salgueiro apresentou alegorias e fantasias luxuosas, e uma crítica social mais ácida: o palhaço representado no último carro alegórico movimentava o braço para esconder o rosto negro com uma máscara branca.

Entre as diversas celebridades que desfilaram na escola da zona norte, a bateria e seu redor reuniam duas das mais cultuadas: a rainha (da bateria) Viviane Araújo e o cantor Xande de Pilares, que não cantou, mas acompanhou os intérpretes Émerson Dias e Quinho.

Unidos da Tijuca

Quarta escola a se apresentar, a Unidos da Tijuca discorreu sobre arquitetura, tendo como mote a cidade do Rio de Janeiro, que em 2019 recebeu da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) o título de primeira capital mundial da arquitetura e neste ano vai sediar o Congresso Mundial de Arquitetos. O desfile marcou o retorno do carnavalesco Paulo Barros à escola onde ele se tornou famoso — foi campeão em 2010, 2012 e 2014, e desde 2015 trabalhou em outras agremiações.

Não faltaram alas coreografadas nem carros alegóricos teatralizados, onde a ação é produzida por um grande conjunto de pessoas. Essas são duas das principais características de Barros

Enquanto o samba, que tem entre os compositores Dudu Nobre e Jorge Aragão, focou na arquitetura do cotidiano do Morro do Borel, favela berço da escola, o desfile exibiu alas e carros monumentais, que discorriam sobre a história da arquitetura, incluindo as pirâmides do Egito e o coliseu romano. O Cristo Redentor foi retratado duas vezes; na primeira, em construção, ele girava.

Mocidade Independente de Padre Miguel

A Mocidade prestou homenagem à cantora Elza Soares. Criada na Vila Vintém, favela da zona oeste do Rio que é o berço da escola de samba, a artista de 89 anos desfilou em um trono, no último carro alegórico, e foi aclamada pelo público.

Com um dos sambas mais aclamados do ano, fácil de cantar e carregado de drama — como a vida de Elza — na interpretação de Wander Pires, a escola levantou a plateia pela força do enredo. Emocionada, a cantora Sandra de Sá, uma das autoras da música, era das mais empolgadas. Mas o desfile não foi tão bom quanto a trilha sonora.

Beija-Flor

A Beija-Flor encerrou a segunda noite de desfiles no Rio de Janeiro discorrendo sobre os trajetos percorridos pela humanidade — para conquistar territórios ou encontrar a terra prometida, por exemplo — e as ruas famosas do mundo, como Abbey Road, em Londres, e El Caminito, em Buenos Aires. Mas a escola precisou correr e deve perder pontos em quesitos como evolução.

*Com Estadão Conteúdo