São Clemente, Unidos de Vila Isabel, Salgueiro, Unidos da Tijuca, Mocidade e Beija-flor encerram nesta segunda-feira (24) os desfiles do Grupo Especial do Carnaval no Rio de Janeiro. A festa na Marquês de Sapucaí inicia às 21h30 e deve seguir até o fim da madrugada. As escolas de samba encantam os foliões com enredos, que entre os temas, homenageiam até mesmo a sambista Elza Soares. Confira:

São Clemente

A São Clemente revisita e reconstrói a história nacional na Sapucaí mostrando como a política, a malandragem e os trambiques se misturam desde o período colonial. Com abordagem satírica, o enredo pretende divertir e escancarar a vigarice brasileira.

O Conto do Vigário
O sino toca na capela e anuncia
Nossa Senhora começou a confusão!
Quem vai ficar com a imagem de Maria?
O burro vai tomar a decisão
Mas o jogo estava armado
Era o conto do vigário

Nessa terra fértil de enredo
Se aprende desde cedo
Todo papo que se planta dá
Dom João deu uma volta em Napoleão,
Fez da colônia dos malandros capital
Trambique, patrimônio nacional

Tem laranja!
“Na minha mão, uma é três e três é dez!”
É o bilhete premiado vendido na rua
Malandro passando terreno na lua!

Hoje, o vigário de gravata
Abençoa a mamata,
Lobo em pele de cordeiro
“Trago em três dias seu amor”
“La garantia soy yo!”

“Só trabalho com dinheiro”
Chamou o VAR, tá grampeado,
Vazou, deu sururu,
Tem marajá puxando férias em Bangu!

Balança na rede
Abre a janela, aperta o coração
O filtro é fantasia da beleza
Na virtual roleta da desilusão

Brasil, compartilhou, viralizou, nem viu!
E o país inteiro assim sambou
“Caiu na fake news!”

Meu povo chegou ôô!
A maré vai virar, laiá!
Na ginga, pra frente, lá vem São Clemente
Sem medo de acreditar!

Unidos de Vila Isabel

Unidos de Vila Isabel cria uma nova história para Brasília na avenida. A lenda indígena “Gigante pela própria natureza: Jaçanã e um índio chamado Brasil” conta a história de uma capital nacional nascida para levar esperança aos povos da terra.

Gigante Pela Própria Natureza: Jaçanã e Um Índio Chamado Brasil
Sou eu!
Índio filho da mata
Dono do ouro e da prata
Que a terra mãe produziu

Sou eu!
Mais um Silva pau de arara
Sou barro marajoara
Me chamo Brasil
Aquele que desperta a cunhatã
Pra ouvir Jaçanã sussurrar ao destino

O curumim, o piá e o mano
Que o vento minuano também chama de menino

Do Tapajós
Desemboquei no Velho Chico
Da negra Xica, solo rico das Gerais
E desaguei em fevereiro
No meu Rio de Janeiro terra de mil carnavais

Ô viola!
A sina de Preto Velho
É luta de quilombola, é pranto é caridade
Ô fandango!
Candango não perde a fé
Carrega filho e mulher
Pra erguer nova
Cidade

Quando a cacimba esvazia
Seca a água da moringa
Sertanejo em romaria é mais forte que mandinga
Assim nasceu a flor do cerrado
Quando um cacique inspirado
Olhou pro futuro
E mandou construir

Brasília joia rara prometida
Que a Nossa Senhora de Aparecida
Estenda seu manto
Pro povo seguir

Sou da Vila não tem jeito, fazer samba é meu papel
Fiz do chão do Boulevard, meu céu
‘Paira no ar’ o azul da beleza
Gigante pela própria natureza

Salgueiro

Na tentativa de recuperar a liderança do Carnaval carioca — troféu que não conquista desde 2009, o Salgueiro homenageará Benjamin de Oliveira, o primeiro palhaço negro do Brasil. Com o tributo ao artista, a escola de samba carregará pela Sapucaí uma forte mensagem de representatividade.

O Rei Negro do Picadeiro
Na corda bamba da vida me criei
Mas qual o negro não sonhou com liberdade?
Tantas vezes perdido, me encontrei
Do meu trapézio saltei num voo pra felicidade
Quando num breque, mambembe moleque

Beijo o picadeiro da ilusão
Um novo norte, lançado à sorte carnaval 2020
Na “companhia” do luar…
Feito sambista…
Alma de artista que vai onde o povo está

E vou estar com o peito repleto de amor
Eis a lição desse nobre palhaço
Quando cair, no talento, saber levantar
Fazer sorrir quando a tinta insiste em manchar

O rosto retinto exposto
Reflete no espelho
Na cara da gente um nariz vermelho
Num circo sem lona, sem rumo, sem par…
Mas se todo show tem que continuar
Bravo!

Há esperança entre sinais e trampolins
E a certeza que milhões de Benjamins
Estão no palco sob as luzes da ribalta
Salta menino!

A luta me fez majestade
Na pele, o tom da coragem
Pro que está por vir…
Sorrir e resistir!

Olha nos aí de novo
Pra sambar no picadeiro
Arma o circo, chama o povo, Salgueiro!
Aqui o negro não sai de cartaz
Se entregar, jamais!

Unidos da Tijuca

O enredo da Unidos da Tijuca celebra o Rio de Janeiro, cidade mãe da escola. Além de homenagear a beleza natural e arquitetônica do município eleito patrimônio da humanidade, o tema alerta para o cuidado com o meio ambiente.

Onde Moram os Sonhos
O sonho nasce em minha alma
Vai tomando o peito e ganhando jeito
Se eternizando, traduzido em forma
O mais imperfeito, perfeição se torna

Lá no meu quintal, eu vou fazer um bangalô
Já foi tapera feita em palha e sapê
E uma capela que a candeia aluminou
A lua cheia…

Vem, é lindo o anoitecer
Vai, eu morro de saudade
Tomo mundo um dia sonha ter
Seu cantinho na cidade

Como é linda a vista lá do meu Borel
Luzes na colina, meu arranha-céu
Linhas do arquiteto, a vida é construção
Curva-se o concreto, brilha a inspiração

Lágrima desce o morro
Serra que corta a mata
Mata, a pureza no olhar
O Rio pede socorro
É terra que o homem maltrata
E meu clamor abraça o Redentor

Pra construir um amanhã melhor
O povo é o alicerce da esperança
O verde beija o mar, a brisa vai soprar
O medo de amar a vida

Paz e alegria vão renascer
Tijuca, faz esse meu sonho acontecer

A minha felicidade mora nesse lugar
Eu sou favela
O samba no compasso é mutirão de amor
Dignidade não é luxo nem favor

Mocidade Independente de Padre Miguel

A homenageada da Mocidade neste ano é Elza Soares. A escola explora diversos aspectos da vida da cantora, como sua importância para a formação musical e cultural brasileira, suas lutas e conquistas, a representação da força feminina e sua simbologia mística.

Elza Deusa Soares
Lá vai, menina
Lata d’água na cabeça
Esqueça a dor
Que esse mundo é todo seu
Onde a água santa foi saliva
Pra curar toda ferida
Que a história escreveu

É sua voz que amordaça a opressão
Que embala o irmão
Para a preta não chorar
Se a vida é uma aquarela
Vi em ti a cor mais bela
Pelos palcos a brilhar

É hora de acender
No peito a inspiração
Sei que é preciso lutar
Com as armas de uma canção
A gente tem que acordar
Da “lama” nasce o amor
Quebrar as agulhas
Que vestem a dor

Brasil
Esquece o mal que te consome
Que os filhos do Planeta Fome
Não percam a esperança
Em seu cantar

Ó nega!
Sou eu que te falo em nome daquela
Da batida mais quente
O som da favela
A resistência em oração

Se acaso você chegar
Com a mensagem do bem
O mundo vai despertar
Deusa da Vila Vintém
És a estrela
Meu povo esperou tanto pra revê-la

Laroyê e Mojubá
Liberdade
Abre os caminhos pra Elza passar
Canta Mocidade!
Essa nega tem poder
É luz que clareia
É samba que corre na veia

Beija-flor de Nilópolis

As estradas, caminhos e rotas que serviram de palco para a história da humanidade servem de inspiração para o enredo da Beija-flor. Até mesmo a Marquês de Sapucaí é homenageada já que, de acordo com a escola, todas as vias desembocam na avenida mais importante do Carnaval carioca.

Se Essa Rua Fosse Minha
Preceito!
Minha fé pra seguir nessa estrada
Odara ê! Reina firme na encruzilhada
Abram os caminhos do meu Beija-Flor
Por rotas já trilhadas no passado

O tempo de tormentas que esse mar levou
Revelam este novo eldorado
Nas trilhas da vida… desbravador!
Destino traçado… vencedor!
Nos becos da solidão
Moleque de pé no chão

E nessas andanças eu sigo teus passos
São tantas promessas de um peregrino
É crer no milagre, sagrados valores
Em tantos altares, em tantos andores
A vela que acende a dor que se apaga
A mão que afaga se torna corrente

Nilopolitano em romaria
A fé me guia! A fé me guia!

Em meus devaneios
Entre o real e a imaginação
Saudade persiste,
Insiste em passear no coração
Feito um poema a beira-mar
Canto pra te ver passar
Me vejo em teu caminho

Nessa imensidão azul do teu amor
E às vezes, perdido
Eu me encontro em tuas asas, Beija-Flor
Por mais que existam barreiras
Eu vim pra vencer no teu ninho
É bom lembrar, eu não estou sozinho

Ê laroyê ina Mojubá
Adakê Exu ôôô
Segura o povo que o povo é o dono da rua
Ô corre gira que a rua é do Beija-Flor