“Ela me olhava muito orgulhosa de si mesma porque estava participando e tocando os instrumentos. Seu olhar feliz ficou gravado de um jeito muito forte em mim”, conta Luzia Aparecida de Oliveira ou, simplesmente, a mãe de Júlia. Com a voz embargada pelo choro, a mulher de 53 anos lembra a alegria da filha ao participar de um bloco de Carnaval em meio ao tratamento de leucemia. Internada no Instituto de Tratamento do Câncer Infantil (Itaci) há 5 meses, Júlia de Oliveira Matias (8), foi surpreendida em seu quarto pela batucada e cantoria na última quarta-feira (12).

O Bloco do Riso Frouxo, da associação Doutores da Alegria, leva a folia do Rei Momo às crianças hospitalizadas, seus acompanhantes e profissionais da saúde pelo quarto ano consecutivo em São Paulo. Sob a supervisão do coordenador artístico David Tayiu, o bloco preparou nesta edição um tributo às vozes femininas que fizeram história como Beth Carvalho, Ivone Lara, Leci Brandão, Emilinha Borba e Carmen Miranda. A ideia surgiu com a intenção de ressaltar a presença crescente das mulheres em todas as áreas da saúde pública, desde as mães que lutam pelo restabelecimento dos filhos até as diretoras gerais dos hospitais.

“Nos divertimos carregando para dentro do hospital o Carnaval que o folião vive na rua. Fazemos um trabalho de resgatar as manifestações populares para os pacientes infantis que perdem a oportunidade de brincar e socializar”, diz Ronaldo Aguiar, diretor artístico dos Doutores da Alegria.

Mais de 3 mil pessoas devem ser contagiadas pela energia dos besteirologistas neste ano. O Instituto da Criança e o Hospital do M’Boi Mirim os receberam no último dia 10, já o Hospital Santa Marcelina e o Hospital Geral do Grajaú no dia 11. Durante o dia 12, a equipe marcou presença no Instituto de Tratamento do Câncer Infantil e no Hospital do Mandaqui. O Hospital Universitário da USP e o Hospital Municipal do Campo Limpo caíram na folia no último dia 13 e, por fim, os pacientes do Hospital Santa Marcelina terão a oportunidade de cantar e dançar ao som dos Doutores da Alegria novamente no dia 18 de fevereiro.

Apesar de trabalharem em áreas opostas, o diretor artístico e Alessandra Prandini, oncologista pediátrica do Itaci, atribuem o mesmo tom para o bloco. “Muitos pacientes estão internados há bastante tempo porque precisam controlar medicamentos, antibióticos e até transfusões. As atividades são muito benéficas porque trazem para a vidinha deles um pouco do mundo real, o mundo que viviam até mesmo na escola”, ressalta Prandini.

Em meio aos “momentos difíceis” da reincidência do câncer e da internação conjunta — “nossa internação”, como se refere ao acompanhar a filha todos os dias no hospital, a mãe da pequena Júlia afirma acreditar mesmo que o momento de descontração contribui para seu tratamento. “Ela ficou tão feliz vendo aquele colorido todo, a animação gigante. Quebra o clima tenso e colabora com a recuperação, ajuda a criança a melhorar mais rápido.”

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), cerca de 12 mil crianças e adolescentes são diagnosticadas com câncer anualmente no Brasil — uma média de 32 casos por dia. A leucemia é o tipo mais comum entre a faixa etária, representando 30% dos casos.

“Toda atividade que busca colocar as crianças na vida que elas deveriam ter e nas coisas das quais elas não deveriam ser privadas pela doença são extremamente importantes para que o tratamento seja conduzido da maneira mais apropriada possível. Há um reflexo emocional muito forte. É difícil quantificar, mas todos os oncologistas pediátricos acreditam que esses benefícios podem atingir o tratamento terapêutico em si”, comprova a hipótese de Luzia e esclarece Vicente Odone, diretor médico do Itaci.

Entretanto, Odone defende que as consequências positivas do bloco e das atividades lúdicas não atingem apenas o paciente, mas também todos à sua volta. “As famílias sentem que a convivência com as coisas habituais do dia a dia mostram que a batalha exaustiva contra a doença é uma briga que vale a pena ser lutada. Que as crianças estão sendo tratadas não apenas para superar um momento, mas sim para a vida. Uma vida totalmente indistinguível daquela das outras crianças que não passaram pelo câncer.”

A voz emocionada saí de cena e dá lugar à esperança vestida por marchinhas, bandeirolas e alegria. “Sou muito grata pelos momentos felizes ao lado da minha filha”, conclui Luzia.