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Cooperação, Inovação, Sucessão: as mulheres invadem o agro.

Cooperação, Inovação, Sucessão: as mulheres invadem o agro.

Por José Luiz Tejon em coautoria com a Drª. Paula Angélica Reis Carneiro, bióloga, advogada na área ambiental e consultora no agronegócio. Membro da União Brasileira da Advocacia Ambiental (UBAA) e integrante da Comissão Nacional das Mulheres Agraristas da UBAU.

 

É perceptível (e necessário) que atualmente o debate sobre a equidade de gênero já ocupa o primeiro plano em vários espaços fundamentais – principalmente na mídia e em ambientes acadêmicos e corporativos. Isso é um ótimo sinal, na medida em que significa que aquilo que antes era automaticamente incorporado em comportamentos e em hábitos sexistas, pautados por vieses inconscientes, passa a ser pauta de discussão. E, mais ainda, passa a ser visto como algo que precisa ser “desnormalizado”.

Algo que precisa mudar. Não pode mais ser considerado normal, então, que mulheres e homens que ocupam os mesmos cargos em condições equivalentes não usufruam dos mesmos benefícios e contrapartidas. Afinal, números do Relatório Mundial sobre a Desigualdade de Gênero de 2020 mostram que o caminho para a equidade é longo se continuarmos no mesmo ritmo: seriam necessários 59 anos para alcançar esse patamar de equilíbrio entre homens e mulheres no mercado de trabalho.

Infelizmente, o fato de o tema receber grande enfoque na atualidade não significa que automaticamente esse destaque se converta em melhoria na qualidade de vida das mulheres e em maior equidade de gênero no mercado de trabalho –  ou em outros aspectos da sociedade. Ainda hoje, quando se pensa em cargos de liderança é comum vislumbrar uma figura masculina à frente de grandes negócios, como se às mulheres não fosse permitido ocupar esse lugar –  mesmo que em algumas empresas e até mesmo em alguns governos as mulheres já tenham quebrado essas barreiras, assumindo cargos de CEO ou presidência. Isso acontece porque essas mulheres expoentes nos cargos de liderança ainda são exceção na nossa sociedade e ainda está, mas não deveria, arraigada em nossas mentes a associação entre o masculino e o poder.

Essa associação entre o masculino e o poder foi forjada às custas da opressão das mulheres por um sistema que até hoje tem sido injusto não somente nos pagamentos reduzidos das mulheres em relação aos homens, mas também com relação à expectativa que se projeta sobre as mulheres quanto ao papel social que devem desempenhar. Socialmente, espera-se que elas cumpram com uma dupla jornada de trabalho: aquela que se exerce nos cargos que ocupam no mercado de trabalho e aquela que se exerce em casa. Essa dupla jornada de trabalho é a realidade para a maioria das brasileiras, a quem é cobrada a responsabilidade de zelar pelo cuidado da família e da casa, mesmo após cumprirem longas horas de trabalho fora de casa.

No cenário atual, a pandemia e o home-office acentuaram essa carga de trabalho extra não-remunerado que é despejada sobre as mulheres, uma vez que os cuidados domésticos se tornaram muito mais intensos, já que todos os membros da família estão integralmente em casa, demandando não só maior cuidado com a organização da casa ou com o preparo de diversas refeições, mas também auxílio às atividades remotas das crianças nas escolas e malabarismos para o entretenimento dos filhos durante a quarentena.

Avançando no tema, e colocando em destaque o setor do agronegócio brasileiro, percebe-se que historicamente, durante a consolidação desta atividade no país, as mulheres tiveram pouca ou nenhuma voz no processo decisório dos negócios. Uma discriminação que muitas vezes começava dentro da própria família. As filhas quase sempre estavam vinculadas aos trabalhos domésticos, enquanto os filhos eram encorajados a auxiliar o patriarca na gestão do negócio. Como reflexo direto dessa falta de estímulos, a maior parte das herdeiras, até a bem pouco tempo, assumia os negócios com pouca legitimação para tal atribuição e carentes de preparo e de domínio da atividade.

Essa realidade, no entanto, vem mudando drasticamente nos últimos anos. Estudos do Cepea revelam que a participação da mulher no mercado de trabalho do agronegócio cresceu consistentemente entre 2004 e 2015, passando de 24,1% para 27,9%, enquanto o número de homens diminuiu em 7,6%. É evidente o movimento de ascensão feminina no mercado de trabalho, e no agro, não poderia ser diferente. Muitas empresas do setor já contam com mulheres na sua liderança, e esse movimento ocorre tanto para dentro da porteira como para fora dela. Como resultado, observa-se uma busca crescente feminina por aprimoramento e capacitação profissional por meio de cursos ligados ao campo, a exemplo da engenharia agronômica, florestal e veterinária.

Essa profissionalização da mulher no agronegócio não deixa, no entanto, de ser permeada de desafios desconhecidos pelos homens, como a frequente ocorrência do processo de mansplaining (ato em que um homem explica a um grupo de pessoas a fala de uma mulher, muitas vezes levando o crédito pela fala da mulher) e manterrupting  (ato em que um homem interrompe uma mulher diversas vezes no meio de uma conversa, em geral, mais vezes do que interromperia um outro homem) durante eventos como reuniões, congressos e rodas de conversa, denotando a dificuldade feminina em se estabelecer como figura reconhecida e respeitada dentro do agronegócio. Para superar essas barreiras as mulheres se valem de sua característica comunicativa e habilidosamente se unem em grupos por meio de uma sólida e eficaz rede de apoio e de trabalho, que permite a troca de experiências, o aprimoramento de conhecimentos técnicos e a sua constante atualização.

O agronegócio ainda é um setor predominantemente masculino, no entanto, a nova realidade de feminilização do agro não passa despercebida pelas diversas empresas do mercado, resultando em altos investimentos e esforços empreendidos em eventos – como congressos, cursos, palestras e encontros – modelados e promovidos para o público feminino. Nesse contexto, o Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio (CNMA) é um exemplo de encontro de sucesso com foco no papel da mulher no agronegócio brasileiro. Em sua quinta edição o encontro promove a troca de ideias e experiências entre as mulheres do agronegócio.

Protagonistas de um importante movimento de transformação do agronegócio, as mulheres entenderam que o sucesso e a longevidade dos seus negócios estão intimamente relacionados a boas parcerias, ao investimento em tecnologia e a uma gestão cada dia mais comprometida e eficiente. Com efeito, esse rápido e importante movimento em busca da equidade de gênero se reflete por todo o mundo. Na França, de acordo com matéria do jornal Le Monde, as universidades do agronegócio já contam com três mulheres estudando para cada homem. Da mesma forma, no mundo corporativo várias empresas, a exemplo da Basf, Bayer e Yara assumiram nos últimos anos o compromisso de promover a igualdade entre homens e mulheres no local de trabalho e de criar um ambiente acolhedor e, de fato, inclusivo.

As multinacionais possuem iniciativas relevantes nesse sentido. Para atrair, desenvolver, promover e reter mulheres a Basf formou em 2017 o grupo Women in Business (WIB), e no ano de 2019 ganhou a premiação WEP’s (Women’s Empowerment Principles) da Organização das Nações Unidas (ONU) Mulheres, na categoria bronze. Em dezembro de 2019 a Yara Brasil também assinou os Princípios de Empoderamento das Mulheres (WEP) da ONU. A Bayer, a fim de possibilitar o destaque de suas profissionais trouxe para o Brasil o programa implantado com sucesso na filial americana, o programa WISE (Women In Science Exchange), que tem como objetivo empoderar mulheres da área de tecnologia e ciência, contribuindo na igualdade de gênero na companhia, para que tenham igual presença, impacto e reconhecimento em todos os níveis no mercado agro.

Na mesma direção, parceria relevante entre a Corteva, a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e a Fundação Dom Cabral (FDC), instituição com expertise na educação para executivos, desenvolveu a Academia de Liderança para Mulheres do Agronegócio, um programa de treinamento das mulheres do agro com o objetivo de proporcionar treinamentos para que um número cada vez maior de mulheres possa se desenvolver e se destacar não apenas na agroindústria, mas também em associações e entidades de classe ligadas ao setor.

Nessa diversidade inerente ao agro não poderíamos deixar de mencionar, mesmo que de forma sucinta, uma brasileira querida e da qual nos orgulhamos, e cujo trabalho e competência tem feito toda a diferença para o fomento do agronegócio e desenvolvimento do nosso País – a ministra Tereza Cristina do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Tereza Cristina é, sem dúvida, uma referência para o movimento de transformação feminina no agronegócio. Sua paixão pela atividade é reflexo de sua origem, é filha de produtor rural, de sua formação como engenheira agrônoma, e de sua trajetória política e profissional sempre ligada ao agronegócio.

Todos esses fatos e iniciativas demonstram um nítido sinal dos novos tempos – a importância da diversidade de ideias, pensamentos e experiências, pilar relevante para a inovação, e o crescente apoio e reconhecimento da importância do papel da mulher e a necessária união para a construção de uma sociedade mais igualitária.

 

 

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